Se não chover, mais torneiras vão secar no DF

“Até a volta da chuva, a situação é essa (de corte no abastecimento). Não temos nenhuma carta na manga. Inclusive, a tendência, se não chover, é agravar um pouco mais. Então, em vez de ter falta d’água em um dia na semana, vai ter em dois ou três”, afirma o assessor de Projetos Especiais da Caesb, Klaus Neder, no mesmo dia em que parte da população do DF ficou sem abastecimento. O corte acaba hoje, às 8h ou às 11h, a depender da região administrativa.

Jardim Botânico, São Sebastião e região dos condomínios e Brazlândia tiveram o abastecimento cortado ontem entre 10h e 11h, e a normalização deve ocorrer já no início da manhã de hoje. Sobradinho I e II e Planaltina só devem ter o serviço normalizado às 10h.

Em comunicado, a Caesb informou que os motivos foram “o longo período de seca no Distrito Federal, dos baixos níveis das captações e do aumento do consumo de água, em função das altas temperaturas”. A alternativa ocorre para preservar os níveis das reservas dessas regiões e evitar falta de água em maior proporção.

Brasília tem dois tipos de abastecimento. A maior parte das cidades, como Plano Piloto, Guará e de Ceilândia até o Gama, é abastecida pelas represas Santa Maria e Descoberto, onde, apesar de baixo – Santa Maria em 50,44% e Descoberto em 40,95% -, ainda consegue segurar o abastecimento da maioria das cidades.

Já as cidades onde houve corte do fornecimento são abastecidas por sistemas isolados, que são formados por captações onde é possível retirar o líquido, como rios, córregos e poços profundos, conforme explica a Caesb. Como não existe reserva de água nesses locais, sem vazão, não há abastecimento. O jeito, portanto, é cortar a distribuição.


Versão oficial

“Informamos que, na data de ontem, fomos comunicados pela Caesb sobre a necessidade de suspensão do fornecimento de água nas localidades do Jardim Botânico, Brazlândia e Planaltina. Essa medida pontual e provisória ocorreu pelo fato dos sistemas de fornecimento de água nessas regiões serem isolados, ou seja, não são interligados com outros sistemas. Nesta oportunidade, a Adasa solicita a colaboração de toda a população para que sejam instituídas novas práticas e ações de redução do consumo de água, tendo em vista a iminência de atingirmos o Estado de Alerta”, diz a Adasa.

Consumo aumenta nesta época

O assessor de Projetos Especiais da Caesb, Klaus Neder, aponta dois pontos sensíveis nesta época do ano: o calor e a névoa seca. A combinação faz com que as pessoas utilizem mais água. Com a falta de chuva, os mananciais ficam com uma vazão baixa.
Assim, não tem outro jeito: “Tem momentos do dia em que o consumo é maior que do que o manancial consegue produzir. Nesses casos, a Caesb tem de preservar o sistema. A ideia é que, sem água por um período, o manancial se recupere”, justifica.

Até o Ministério Público do DF, por meio da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema), se envolveu na discussão. Para a Prodema, o tema é relevante porque o Distrito Federal se aproxima do estado de alerta, com reservatórios em níveis baixos mesmo para o final do período de seca.

Anderson de Sousa é empresário na área Central de São Sebastião, uma das regiões afetadas. Na casa dele, são seis pessoas, além de dois comércios – um açougue e uma loja de colchões. Anderson até compreende que, se não tem água, é preciso racionar, mas avalia que deveria ser um corte de algumas horas em regiões diferentes.

“Hoje (ontem), não lavei as lojas e tomei banho de caneca para não ficar sujo”, reclama.
Para Enir Silva, a falta d’água foi “ruim demais da conta”. O pior foi ficar sem fazer comida. Como Anderson, a dona de casa não entende o porquê de a interrupção ser tão longa.

Racionamento deve demorar mais um mês

“Estamos em vias de sofrer uma crise hídrica sem precedentes caso não chova em breve ou chova pouco. No pior dos cenários, nossos reservatórios garantem água somente até dezembro. A população precisa adotar com urgência a prática de economizar água. Não podemos fazer chover, mas podemos passar a usar a água com responsabilidade e consciência, de modo sustentável”. É o que recomenda a promotora de Justiça Marta Eliana de Oliveira da Prodema. De acordo com o MPDFT, mesmo com as chuvas, o Distrito Federal somente sairá do estado crítico quando começarem a operar dois novos sistemas de abastecimento, o do Bananal e o de Corumbá, previsto para 2018.

O assessor de projetos especiais da Caesb lembra que só deve haver racionamento – em todo o Distrito Federal – quando o nível dos reservatórios de Santa Maria e Descoberto chegarem a 20%. Para ele, isso deve demorar mais um mês, se as águas não caírem do céu. “A Adasa já intensificou a fiscalização nas bacias e já conversou com os agricultores para maneirarem no gasto de água”, diz.

De acordo com a Adasa, o consumo de água no DF é maior que o ideal. A média, até julho de 2016, foi de 175,1 litros/habitante/dia. A agência considera que 150 litros/habitante/dia seriam suficientes.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMDF), a quantidade deve ser ainda menor: entre 100 e 110 litros devem bastar para que cada pessoa satisfaça suas necessidades durante o dia.

A diferença no consumo diário por habitante entre as cidades do DF é grande. Os dados da Adasa mostram que as regiões com maior gasto médio diário de água são SIA (481 litros), Lago Sul (437 litros) e Brasília (265 litros). Já as cidades com menor consumo médio diário são: Itapoã (121 litros), Riacho Fundo II (125 litros) e Varjão (132 litros).

João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília

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