Crise pode elevar número de casos de trabalhadores com depressão

BRASÍLIA – Com o aumento do desemprego e a crise econômica, o número de atestados médicos e afastamentos por depressão e crises de ansiedade tende a crescer em médio prazo. Essa é a avaliação da diretora da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, Rosylane Rocha. Preocupado em manter a fonte de renda em um mercado que não tem contratado na recessão, o trabalhador acaba aguentando mais pressão calado, o que aumenta as chances de saturação no futuro. Além disso, com as demissões nos últimos anos, muitos empregados tiveram que acumular funções e estão não só sujeitos à maior pressão como viram a jornada aumentar muito.

Nos últimos dois anos, os números de afastamentos arrefeceram em relação ao apresentado entre 2012 e 2014. Em 2014 eram 83,2 mil, por exemplo. Em 2015, sobretudo por causa da greve dos peritos do INSS e do aumento do desemprego, o número caiu para 63,8 mil. Em 2016, voltou a subir para 75,3 mil.

— A crise vai aumentar isso. Contas penduradas, medo de desemprego, isso afeta o equilíbrio emocional. O trabalhador não conversa, não reclama — diz Rosylane.

TRATAMENTO E PRECONCEITO

Jornada exaustiva, ambiente insalubre, falta de pausas, divisão injusta de tarefas, não recomposição de horas trabalhadas a mais. Todos esses fatores são potenciais desencadeadores de transtornos mentais e comportamentais no trabalho. Apesar de quase 200 mil auxílios doença terem chegado até as mãos dos empregadores no ano passado por esse tipo de doença (75 mil deles por depressão), as empresas brasileiras não sabem como lidar quando um trabalhador diz estar deprimido.

Para Rosylane, a empresa deveria acender uma luz amarela no momento em que o primeiro atestado do tipo chega. O ideal, diz, é investigar se algum motivo interno, do ambiente de trabalho, pode ter causado a situação, uma forma de evitar que aquele quadro piore e, ainda, que outros funcionários passem pela mesma situação.

— O empregador, o médico do trabalho da empresa tem que investigar se o trabalhador está sendo perseguido, se a jornada está exagerada, se o trabalhador está sendo acompanhado por um psiquiatra.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, ressalta que a depressão tem tratamento, o que pode permitir um retorno saudável ao emprego. O grande problema, segundo Silva, é que muitas vezes a pessoa deprimida não busca a ajuda correta. O presidente da ABP reforça que a depressão tem que ser tratada com os medicamentos adequados, indicados por médicos especialistas no assunto.
“De cada cem, só dez chegam ao psiquiatra”, diz Antônio Geraldo, da ABP – André Coelho


O tratamento inclui um time: psiquiatras, psicólogos e muitas vezes a ajuda de grupos de apoio. Esses grupos auxiliam as pessoas a não se sentirem isoladas com o problema, por meio da troca de experiências. Segundo ele, de cada cem pacientes com depressão, menos de 10 chega ao psiquiatra.

— Muitas vezes a depressão acaba sendo subdiagnosticada e tratada como outra coisa. As pessoas não procuram um psiquiatra por puro preconceito. Com um tratamento inadequado, com o médico errado, a doença pode se tornar crônica. Aí a pessoa não consegue mais voltar a trabalhar, não consegue mais produzir permanentemente — explicou Silva.

Na via pública, a principal opção são os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Hoje são 2.455 deles. Nesses locais, “o usuário recebe assistência multiprofissional e cuidado terapêutico conforme o quadro de saúde”, com atendimentos noturnos, inclusive, segundo o Ministério da Saúde. Há ainda as Unidades de Acolhimento (UA), que funcionam 24 horas por dia oferecendo suporte aos CAPS para ampliação de cuidados de saúde a pessoas com necessidades decorrentes de uso de álcool e outras drogas.

GASTO FEDERAL DE R$ 1,3 BI

Para o presidente da ABP, mesmo com os numerosos casos de depressão e o impacto no mercado de trabalho, o tratamento na rede pública ainda tem falhas.

— Os CAPS são um lugar para abordagens psicossociais, a maioria não tem psiquiatras todos os dias para atender toda a demanda. O ideal seria um sistema ambulatorial, como para qualquer outra doença: você marca uma consulta, vai para casa e volta para um retorno. Há pouca ênfase na prevenção de recaídas. Não temos campanhas de prevenção para trabalhar o estigma em torno do assunto, a incompreensão.

Da Redação com informações do O Globo

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