Nélida Piñon é homenageada com comenda da Academia Carioca de Letras

Histórias contadas por parentes, como a avó espanhola despertaram interesse de Nélida Piñon pela literatura Fernando Frazão. Agência Brasil

A escritora Nélida Piñon, apesar de ter lutado muito na vida, se considera uma mulher de sorte, e o sentimento tem uma base: a família formada por imigrantes espanhóis que vieram da região da Galícia para o Brasil em busca de um futuro melhor e com a crença de que, no sentido da construção, era possível “fazer as Américas”. Esse foi um dos detalhes da sua trajetória que Nélida contou durante uma homenagem, hoje (6), na Academia Carioca de Letras, também chamada de A Casa de Anchieta, no centro do Rio.

“Eu percebi que ali estava uma reserva excepcional do fabulário humano. Não havia nada do humano que não estivesse ali. Portanto, eu conquistava um acervo de conhecimento”, disse a escritora. Segundo Nélida, foram as histórias de parentes, como a avó espanhola, que a despertaram para a literatura desenvolvida com a cultura de diversas partes do mundo tantas vezes evidente em seus textos. “A cultura deve fazer o seu esforço de ser universal”, afirmou a escritora, ao confessar que tem “um amor profundo pela língua portuguesa”.

Nélida Piñon, que foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL), recebeu das mãos da atriz Fernanda Montenegro a Comenda da Ordem Padre José de Anchieta. “Temos praticamente a mesma idade. Somos resultado de anos vividos passando pelos mesmos processos, sobrevivendo, acreditando, trabalhando, criando. Então, Nélida, é como se me dessem a oportunidade de homenagear uma irmã”, disse Fernanda ao entregar a comenda.

O protocolo da instituição diz que a entrega da comenda deve ser feita por quem ocupa a presidência da academia, mas hoje houve uma quebra para que Fernanda, considerada pela Casa a melhor atriz brasileira, pudesse participar da homenagem à escritora. Além de querer reverenciar Nélida Piñon, a instituição abriu hoje as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, e definiu 2017 como o ano em homenagem às escritoras brasileiras. “Abrimos as comemorações do Dia Internacional da Mulher hoje com o encontro dessas duas mulheres extraordinárias. Pessoalmente, acho que não poderiam ambas ter sido mais bem escolhidas”, disse o presidente da Academia, Ricardo Cravo Albim.

Antes de começar a cerimônia, a atriz disse que pediu a Deus que lhe desse palavras justas, porque Nélida domina a língua portuguesa, e ela não conhece alguém igual. “Não vejo páreo no nosso contemporâneo que domine a nossa língua na sua verticalidade e na sua carnificação como a Nélida. Não só é especial estar aqui com a Nélida como também apavorante. É verdade, não estou fazendo histrionismo, porque o que falar para a minha grande amiga?”, disse.
Dia Internacional da Mulher

Sobre a celebração do dia 8 de março, Fernanda disse que considera importante a comemoração, mas preferia que não houvesse necessidade de haver um dia único para a mulher. “Eu pensei na minha vida, um dia, não ter um dia especial para a mulher, não ter nada especial para índio, não ter nada especial para homossexual. Nada especial para aquilo que se possa achar o outro”, afirmou.

Fernanda acrescentou que fica infeliz com todas as comemorações em torno das mulheres, não porque não mereçam, mas porque isso traz à tona algo que precisa ser sacudido para saber que elas existem. “Mas tudo bem. Acho que vou daqui para um lugar aí, em uma hora aí e infelizmente vão continuar os dias para a mulher, tapete para a mulher, mas não tem Dia do Homem. Vejo o Dia da Mulher não [como] um estado de festa. Mas ele existe, e devemos fazer este dia com a consciência de que não quero uma perfumaria”, disse a atriz. Ela acrescentou que tal momento só ocorrerá quando “o mundo estiver completamente equalizado”.

Para a escritora, o fato de a Academia, além de fazer a homenagem, antecipar as comemorações do Dia Internacional da Mulher e abrir o ano das escritoras brasileiras foi uma conjunção formidável. “Realmente sempre fui uma feminista histórica. Fui a primeira brasileira que comemorou junto às jovens o 8 de março na ABI [Associação Brasileira de Imprensa], no tempo da ditadura”, disse Nélida.

Mesmo já tendo recebido diversas homenagens na vida, Nélida tem boas recordações de cada uma. “Cada homenagem tem uma espécie de configuração. Ela é estelar por si própria e arrasta uma intenção maravilhosa de quem outorga.”

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