Mais Médicos: profissionais do DF contam como é trabalho em aldeia indígena em Roraima

Recém-formados, eles são primeiros brasileiros a trabalhar na comunidade Yanomami/Ye’Kuana. 'A realidade é completamente diferente de tudo que já conhecemos'.

Por G1 DF

Médica recém-formada no DF trabalha pelo programa Mais Médicos em uma aldeia indígena Yanomami — Foto: Arquivo pessoal

Médicos recém-formados no Distrito Federal são os primeiros brasileiros a atender uma comunidade indígena a mais de 2 mil quilômetros de Brasília. Eles se inscreveram no Mais Médicos e optaram por trabalhar no Distrito Sanitário Especial Indigena (DSEI) Yanomami/Ye’Kuana, em Roraima.

Quatro deles estudaram na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), ligada à Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Ananda Conde, de 31 anos, foi a primeira a desembarcar nas terras Yanomami.

“A realidade do distrito indígena é completamente diferente de tudo que já conhecemos no DF. Precisamos ter manejo com a cultura e com as doenças que mais os afligem essa região."

Ananda vai atuar em uma região próxima ao Pico da Neblina, o lugar mais alto do Brasil. Segundo ela, não foi fácil chegar ao local de trabalho.

Aldeia Yanomami/Ye’Kuana, em Roraima — Foto: Arquivo pessoal

"Usamos um avião pequeno, que pousa numa pequena pista construída pelo exército", explicou.

A segunda opção, diz a médica, seria pegar um barco em São Gabriel da Cachoeira (AM), na região do alto Rio Negro e ir até a BR 307. Na estrada, em um trecho sem asfalto, percorrer mais 85 km e, depois, outros 235 quilômetros de barco.

Vencida a distância, Ananda agora passa 15 dias nas aldeias e 15 dias na cidade. A equipe dela é formada por técnicos de enfermagem e um enfermeiro.

Sarampo, desnutrição e tuberculose

Em 40 dias, Ananda já fez mais de 250 atendimentos. De consultas de urgência às visitas domiciliares, o trabalho envolveu partos, picada de cobra, feridas abertas e fraturas ósseas.

Mas o que chamou a atenção, diz ela, foi o grande número de indígenas com sarampo, desnutrição infantil grave e tuberculose. Também há casos de malária, alcoolismo, pneumonia e oncocercose, também conhecida como “cegueira dos rios”.

A médica afirma que, mesmo com as dificuldades, está motivada pelo desafio. Durante o curso, a atenção básica de saúde foi parte importante do currículo.

“Na minha turma também, fomos motivados um pelo outro a enfrentar o desafio.”

Outros profissionais

Médico do Distrito Federal com crianças de aldeia Yanomami, em Roraima — Foto: Arquivo pessoal

Bruno Bessa, de 30 anos, é outro médico recém-formado que saiu de Brasília para atender as comunidades indígenas da região norte do País. Ele chegou no dia 9 de janeiro em Boa Vista, Roraima.

“Decidi vir porque a saúde indígena, infelizmente, está bem defasada, recebe pouca assistência e poucos médicos. Os recursos também são mínimos para uma população bastante carente."

Bruno ainda não começou o trabalho nas aldeias porque vai passar, antes, por uma capacitação. Ele conta que o grupo é o primeiro de brasileiros que atuam como médicos de família e comunidade em uma população Yanomami.

"Antes dos cubanos não havia assistência médica desse tipo, só através de campanhas, quando tinha um epidemia de tuberculose por exemplo”, afirma.

"Quero conhecer essa realidade de perto e tentar fazer alguma diferença pra esses povos.”

Ana Verônica de Sá Resende, de 27 anos, também está em Roraima. Ela chegou no dia 10 de janeiro e conta que no último ano da graduação decidiu que iria participar do Mais Médicos e se inscrever para trabalhar com comunidades indígenas.

Yuri Zago Santana, que chegou no dia 11 de janeiro, disse que pretendia iniciar uma residência esse ano, mas mudou de ideia pouco antes da formatura.

"Eu estava fazendo um juramento na conclusão do curso de medicina e o Brasil perdendo oito mil médicos. Eu tive uma formação humanista, então, acabei me inscrevendo para atuar na comunidade Yanomami, que perdeu essa assistência.”
Para ele, a cultura indígena é bastante diferente do que conheceu ao longo da vida. “Aqui, temos barreiras linguísticas, porque poucos deles falam em língua portuguesa e essa é uma das maiores reservas indígenas do mundo. Minha expectativa é aplicar o que eu aprendi na faculdade, que é levar assistência básica de saúde, prevenir doenças e diagnosticá-las no início”.

Médica formada no DF leva "kit parto" para atendimento em aldeia Yanomami, em Roraima — Foto: Arquivo pessoal

Além dos quatro médicos, outros dois, formados em Universidades do Distrito Federal irão trabalhar no Distrito Sanitário Especial Indigena Yanomami/Ye’Kuana, em Roraima.

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