A doença trouxe o caos para os sistemas de saúde e para o mercado de trabalho
Testes para detecção do Covid-19. Foto: Roque de Sá/Agência Brasil

Simone Salles
Especial para o Jornal de Brasília

O surgimento do novo coronavírus no Brasil, em 2020, levou à adoção de diversas medidas de combate à pandemia no decorrer do ano, entre elas a do isolamento social. A continuidade nos casos de contaminação e morte no país, em 2021, impôs novamente restrições ao convívio entre as pessoas e a necessidade de manutenção do distanciamento. A doença trouxe o caos para os sistemas de saúde e para o mercado de trabalho e até mesmo as tentativas de contenção da Covid-19 como forma de proteção, causaram impactos negativos sobre determinados segmentos sociais, especialmente o feminino.

Desde então, a vida das mulheres tem sofrido consequências que atingem sua saúde, segurança, renda e suas responsabilidades extras como mãe, cuidadora de parentes doentes ou idosos, além de uma maior exposição à violência doméstica. Nota Técnica realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou queda na participação da mulher no mercado de trabalho durante a pandemia, alcançando inclusive uma das menores taxas das últimas décadas. Ainda, segundo dados recentes do Ipea, as mulheres constituem mais de 70% dos profissionais que trabalham na saúde no enfrentamento à Covid-19, o que amplia seu risco de infecções. Em carreiras como a enfermagem, as mulheres representam mais de 80% da participação, de acordo com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde. A enfermeira Mônica Calazans, primeira pessoa vacinada no Brasil, é viúva, cuida da mãe idosa e se desdobra para cumprir 12 horas de plantões em dois lugares diferentes. Mais da metade (53,8%) dos profissionais de saúde que faleceram, considerando todas as categorias, eram do gênero feminino.

Também as mulheres são as mais afetadas nessa crise em decorrência da suspensão das atividades escolares presenciais. O resultado desse fechamento das escolas se traduz em números que comprovam os efeitos diretos na força de trabalho feminina. Do terceiro trimestre de 2019 para o terceiro trimestre de 2020, entre as mulheres com filhos de até dez anos, a parcela que estava trabalhando caiu 7,8%, de 58,2% para 50,4%, – acima da redução de 7,5% da média geral das mulheres.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) mostrou que 7 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho na segunda quinzena de março, logo no começo da pandemia. O estudo “Mercado de Trabalho e Pandemia da Covid-19: ampliação de desigualdades já existentes?”, do Ipea, calcula que é a primeira vez nos últimos três anos que a maioria das mulheres está fora da força de trabalho.

Os efeitos da explosão de casos em todo território nacional e de uma quarentena prolongada são sentidos especialmente pelas mulheres que têm empregos subvalorizados e para as quais trabalhar em casa não é uma opção. De um modo geral, elas dependem do transporte público para se deslocarem para o trabalho, cuidam de filhos ou de outros membros da família, fazem compras no mercado, o que aumenta a probabilidade de contraírem a Covid-19. Esse é o caso das trabalhadoras ocupadas no serviço doméstico, a terceira categoria profissional que mais emprega mulheres no país, até um pouco antes da eclosão da pandemia. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre os desafios do passado no trabalho doméstico do século XXI, aponta que mais de 5,7 milhões de mulheres estavam empregadas. O período atual de medidas emergenciais de restrição e de recorde de mortes levam a um aumento da vulnerabilidade da categoria em razão do tipo de trabalho realizado e da desproteção social quanto a direitos trabalhistas, uma vez que quase 60% não possuem carteira assinada. O desemprego tende a crescer porque os patrões temem o contágio. Denúncias de restrição de mobilidade e de cárcere privado se intensificam nos sindicatos das trabalhadoras domésticas. Em meio a conjuntura de calamidade pública, um caso chocou o país – uma criança perdeu a vida quando, sem escola, teve que acompanhar sua mãe, trabalhadora doméstica, ao emprego. A empregadora responde pelo crime de abandono de incapaz, por deixar o menino de 5 anos sozinho no elevador enquanto sua mãe, a trabalhadora, passeava com o cachorro da família e a empregadora fazia as unhas.

Para grande parte das mulheres, a expectativa em 2021 é de retrocessos e perdas. Aquelas que vivem em relacionamentos violentos ficam mais expostas ao agressor e impossibilitadas de pedir ajuda. Estudo da Rede de Observatórios da Segurança, que monitora a violência nos estados de São Paulo, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Ceará, publicado recentemente, em março, mostra que foram registrados 1.823 casos de violência contra a mulher nesses estados. Há vítimas adolescentes, jovens, adultas e idosas. A pesquisa constatou que houve aumento no número de agressões e feminicídios no cenário de isolamento devido à intercorrência do novo coronavírus, comparando 2020 ao ano de 2019. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), foi registrada uma média de três vítimas por dia no primeiro semestre de 2020, quando foram assassinadas 648 mulheres, um aumento em relação ao mesmo período em 2019. Apenas na véspera de Natal, pelo menos quatro mulheres foram mortas, entre elas a juíza Viviane Vieira do Amaral, de 45 anos, assassinada pelo ex-marido com 16 facadas, na frente das três filhas pequenas, no Rio de Janeiro. Os acusados são majoritariamente cônjuge ou ex-cônjuge inconformados com a separação.

Os desafios impostos pela pandemia às mulheres reforçam a necessidade de respostas imediatas em termos de políticas públicas e ações de auxílio como forma de protegê-las minimamente em termos de saúde, segurança e manutenção do emprego.