Presidente da Rede Sarah Kubitschek fala da proposta de criação do Instituto Hospital de Base

Ao propor a criação do Instituto Hospital de Base, o governo Rollemberg apresenta como parâmetro de sucesso o modelo a gestão da rede Sarah Kubitschek. Essa comparação é pertinente?

Não me parece pertinente. São situações muitos distintas. A Rede Sarah é nacional, conta com 9 hospitais, atende a 1 milhão e meio de pacientes por ano, não temos pronto-socorro, os nossos hospitais são quaternários, não podem ser comparados a um hospital geral de grande porte com serviço de emergência como é o caso do HBDF. Consideramos sempre saudável o debate público sobre modelos diferenciados para a gestão na saúde, visando o melhor atendimento da população. Se tivéssemos sido consultados a respeito do projeto, nossa sugestão seria que um novo modelo fosse implantado em uma unidade de menor porte, em caráter piloto, e não no Hospital de Base. O HBDF é a grande referência em urgência e emergência no DF e na região do Entorno, contando com profissionais altamente qualificados.

Qual é a principal diferença entre a gestão do Sarah e o modelo proposto pelo GDF para administração do Hospital de Base?

Li o projeto de lei para a criação do Instituto. Ele contém apenas 3 artigos copiados da lei federal nº 8.246 de 1991 que criou a Associação das Pioneiras Sociais /Rede Sarah de Hospitais, talvez porque sejam realidades muito diferentes. No nosso contrato, temos um sistema muito mais rígido de compras e seleção pública, ambos construídos em conjunto com o TCU e posteriormente auditados anualmente por eles e aprovados. Nosso contrato é de cinco anos, o do DF propõe 20 anos. Nossos profissionais são contratados pelo regime da CLT, mas nossa lei previu assegurar a previdência privada. Não vi menção à aposentadoria no projeto do Base. Enfim, são legislações e normas muito diferentes, talvez em função de diferentes perspectivas. A implantação da nossa lei consolidou algo que já funcionava com nossos princípios, recursos humanos e estrutura física. Nossa Associação era a antiga Fundação das Pioneiras Sociais, para melhorar a gestão e transformar em rede nacional foi aprovada no Congresso Nacional a lei que previa o primeiro contrato de gestão do país, mas não houve nenhuma mudança estrutural relevante. Significou a expansão de um modelo de saúde que já vinha sendo estudado e aplicado. Foi um processo de dentro para fora. O modelo não se reduz a uma Lei ou contrato, o modelo Sarah foi se desenvolvendo, aprimorando e consolidando ao longo de muitos anos e precisa continuar a se aperfeiçoar. 

Qual é a sua opinião sobre esse projeto em discussão na Câmara Legislativa que discute a gestão do Hospital de Base com mais liberdade para contratações? É o caminho para melhorar o atendimento ao cidadão ou há outras formas?

A liberdade de contratação de compras, por exemplo, pode ser um mecanismo que venha a ajudar a agilizar um pouco a gestão. Esta liberdade, no entanto, depende de normas de licitação muito claras, de muita transparência e competência no uso dos recursos. Quando se trata de dinheiro público, não se pode falar muito em “liberdade”, é preciso ter muita responsabilidade e mecanismos de transparência e governança que permitam a sociedade e aos órgãos controladores acompanharem a gestão, e nos ajudarem a aprimorá-la. A gestão é muito maior do que a contratação, não adianta ter agilidade para comprar medicamentos, porém não ter um excelente controle de estoque e deixar que percam validade ou faltem no estoque. Quanto à contratação de pessoal, nossa experiência mostra que quanto mais exigente, melhores serão os profissionais e consequentemente o funcionamento da unidade hospitalar. 

Por que a Rede Sarah alcançou níveis de excelência e é considerada um modelo de sucesso?

Trabalhamos com base em princípios filosóficos, que estão afixados nas paredes de todas as nossas unidades que são ligados à qualidade, humanismo e respeito ao patrimônio público. Todos os profissionais são admitidos por seleção pública de alto nível, depois fazem um período de três a seis meses de treinamento para homogenizar o conhecimento, entender os princípios e se integrar a um modelo realmente interdisciplinar que leva a uma melhor qualidade de atendimento. Não há terceirizações, áreas como higiene, segurança, copa e cozinha, lavanderia são todas compostas de pessoas aprovadas por seleção pública e treinadas, todos são respeitados como profissionais de saúde. O fato de, por exemplo, um auxiliar de higiene fazer uma formação entendendo o que são vírus, bactérias, etc, podendo ver no microscópio, ajuda a manter a infecção hospitalar muito baixa. Todos trabalham em dedicação exclusiva, o que permite maior integração, maior compartilhamento de saberes e maior dedicação a cada pessoa atendida por nós. A valorização do trabalhador e o cuidado com a satisfação dele também é um ponto forte, porque se a pessoa trabalha feliz atende o paciente melhor. Outro ponto fundamental é a informatização. Nossa Rede de Hospitais implantou o prontuário eletrônico desde 1996, e informatizamos todos os sistemas de informação hospitalar e de gestão de materiais, estoques, compras, enfim, temos mecanismos de governança e transparência muito fortes, o que permite maior eficácia e eficiência na aplicação dos recursos públicos.

Por Ana Maria Campos-À QUEIMA-ROUPA

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