Marcia Kemp afirma que o artesanato é o maior luxo que a sociedade tem.

foto: Nannacay/Divulgação)

Marcia Kemp vivia uma vida de executiva. Funcionária de uma empresa multinacional, ela se acostumou a carimbar o passaporte com frequência — pela profissão e por prazer. Encantada por culturas diferentes e destinos nada convencionais — Marcia considera-se uma National Geographic —, ela achou propósito profissional ao conhecer os masais, tribo localizada entre o Quênia e a Tanzânia, em uma viagem à África, em 2014.

Lá, a empresária percebeu que podia unir a indústria da moda ao artesanato sentimental e único. “Sempre trabalhei com indústrias: petróleo, minas etc. E, para mim, a moda era uma indústria também. Sempre acreditei que o artesanato é o maior luxo que temos, e achei que havia um gap na moda em relação a isso.”

A experiência gerou frutos e fez com que Marcia se dedicasse, cada vez mais, à empreitada. Assim, começou a história da Nannacay, sua marca de nome de origem Quechua Aimara, língua dos andinos, que significa irmandade de mulheres.

O primeiro destino foi o Peru, onde a empresária detectou uma desvalorização no artesanato local. “Naquele ano, a Nannacay era só um projeto social meu. Eu trabalhava de segunda a sexta na IBM, pegava um avião na sexta para o Peru, passava o fim de semana com as artesãs e voltava para o Brasil no domingo. Fiz isso umas 10 vezes durante um ano”, relembra.

(foto: Nannacay/Divulgação)Incansável, a empresária consolidou a marca de acessórios — a maioria feita em palha e toquilla —, profissionalizando artesãs na parte peruana da Amazônia, no Brasil e no Equador. O trabalho de capacitação e ensino é demorado, mas recompensador. “Cada grupo demora um ano para ser plenamente qualificado. Aos poucos, vou introduzindo tecnologias, smartphones, computadores. É um processo lento, porque tento entender como eles trabalham, qual a trama deles, o jeito de fazer. É uma produção mútua, a quatro mãos. Criamos juntos.”

Quanto à distribuição de renda, Marcia garante que a profissionalização é aliada. “Elas colocam o preço no produto, e eu compro delas. Acredito que isso faz parte do que é ser família Nannacay: não fazemos caridade nem damos assistencialismo. Eu as capacito para que sejam independentes”, esclarece.

Duas perguntas para Marcia Kemp

• Produtos artesanais pedem uma produção mais lenta, mais demorada. Como você lida com esse tempo necessário de produção e o atual imediatismo do consumo de moda? 
Sigo o mercado internacional. Lanço três coleções por ano: junho, setembro e fevereiro. Se um cliente compra de mim em setembro, ele espera alguns meses, pois preciso de um tempo de produção. Tenho o e-commerce com produtos prontos e showrooms, mas recebo muita encomenda. E aqui no Brasil é onde faço o processo de finalização e todos os acabamentos. Consigo misturar um país com o outro, e é isso que difere, porque não se encontra muito esse tipo de trabalho hoje em dia.

• A indústria da moda está gritando por iniciativas mais sustentáveis e afetivas. Como você vê o panorama da responsabilidade social dentro da indústria? Sente que a Nannacay influencia nesse sentido?
Creio que isso parte de cada indivíduo. É uma motivação individual. Saí do corporativismo, porque queria deixar uma marca no mundo e um legado visível para as pessoas. Estou fazendo minha parte. Hoje, tenho artesãs que têm o próprio carro. Comecei com 13 famílias e, agora, atendo 200. É uma missão. Comecei os trabalhos com presidiários também. Nunca imaginei que conseguiria alcançá-los, mas agora são 20 que produzem. É uma consciência que cada um deve ter, e o que cada um quer para o planeta

Fonte: CB