Ao menos 900 meninas e mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde no Brasil em 2023 por terem sido vítimas de violência, segundo dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) levantados pela Folha com o Ministério da Saúde. No total, foram registrados 330 mil casos no ano passado.
Entre 2015 e 2025, mulheres representaram 71% das notificações de violência interpessoal — que abrange agressões físicas, psicológicas e sexuais — totalizando 2,3 milhões de casos em unidades públicas e privadas. O perfil predominante é de mulheres negras, entre 20 e 49 anos, com escolaridade inferior ao ensino médio, agredidas por parceiro ou ex-parceiro dentro de casa, e que já haviam buscado atendimento médico anteriormente.
Segundo a pesquisadora Camila Alves, da Fiocruz, a subnotificação é uma realidade: a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher estima que apenas 34% das vítimas procuraram assistência à saúde. O aumento dos registros pelo SUS, destaca, reflete principalmente uma melhora na captação dos casos, não necessariamente um crescimento das agressões.
Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado em março, indica perfil similar ao das vítimas de feminicídio no país entre 2015 e 2025. Dados do Sinan apontam ainda que 53% das meninas e mulheres atendidas por violência já haviam sido notificadas antes pelo mesmo motivo. Pesquisadoras alertam que, em muitos casos, episódios sucessivos evoluíram para morte.
O Ministério da Saúde reconheceu há 25 anos a violência como problema de saúde pública, exigindo notificação obrigatória a cada atendimento. Segundo Deborah Carvalho Malta, professora da UFMG, a atuação dos profissionais de saúde busca impedir a escalada da violência, conectar vítimas a serviços sociais e, quando necessário, orientar sobre medidas protetivas e denúncia policial — sempre respeitando a decisão da mulher.











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