Seca no DF: reservatórios domésticos não suportam rodízio de 2 dias, diz especialista

Para pesquisador, modelo 'penaliza população de baixa renda'. Caesb pede que brasilienses continuem economizando água: 'Não adianta aumentar reservatório e manter consumo'.

Por Letícia Carvalho, G1 DF

Morador do DF corre para comprar caixa d'água e reduzir impacto do racionamento (Foto: TV Globo/Reprodução)

A Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb) entregou para a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (Adasa), na segunda-feira (23), o plano de ampliação do racionamento de água em Brasília. Diante do possível cenário de até 48 horas sem fornecimento, brasilienses passaram a questionar se as caixas d'água instaladas são suficientes para o período.

Em entrevista ao G1, o especialista em saneamento e meio ambiente Adauto Santos disse que um reservatório básico, de cerca de 500 litros, "não consegue suportar todos esses dias de falta de água”. Para ele, o modelo acabará penalizando a população de baixa renda do DF – que não tem condições de ampliar a estocagem.

"A população de baixa renda costuma consumir até 10 metros cúbicos [10 mil litros] de água. Usa a água apenas para as necessidades. São os consumidores que menos gastam. Essa população não tem condição financeira para comprar mais reservatórios."

O professor de manejo de bacias hidrográficas da Universidade de Brasília, Henrique Leite Chaves, afirmou que, apesar da preocupação, a população do DF não pode pensar apenas no abastecimento de suas próprias casas, mas “na água de todos". "O barco é o mesmo ”, pontua.

“Mais caixas d’água diminuem a chance de ficar sem água, porém aumentam o consumo de água. E nós atingimos 9% no Descoberto [veja mais abaixo]. As medidas adotadas pelo governo não estão erradas. O que está errado é o 'timing' em que elas foram incorporadas.”

Barragem do Descoberto, no DF, com 11,7% da capacidade preenchida, em 17 outubro de 2017 (Foto: Pedro Ventura/GDF/Reprodução)

O presidente da Caesb, Maurício Luduvice, apontou em entrevista coletiva na última sexta-feira (20) a necessidade de os brasilienses continuarem poupando água. “Não adianta a pessoa aumentar o reservatório e manter o mesmo consumo de quando não tinha a crise hídrica”, disse Luduvice.

Análise Adasa

O documento enviado pela Caesb, agora, será avaliado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (Adasa). A agência afirmou ao G1 trabalhar com um prazo de "até 24 horas para aprovação da proposta" – prazo que termina nesta terça.

A Caesb afirmou que, mesmo após a aprovação do planejamento, "ainda não tem data marcada para iniciar a ampliação do rodízio". Na sexta, o presidente da companhia afirmou que, se for necessário implementar o racionamento de dois dias, "a população será devidamente informada com antecedência”.

Volume do Descoberto

A Caesb também apresentou em seu plano a possibilidade de manter o ritmo atual de abastecimento, pelo menos, até que o reservatório do Descoberto chegue a 4%. O "gatilho" para reduzir a captação de água na bacia era de 9% – mais que o dobro.

Nesta segunda-feira, o volume do Descoberto alcançou os 9% que funcionavam como um alerta, até a última semana. Segundo as curvas de monitoramento projetadas pela Adasa, esse nível indicava o ponto mais baixo previsto para o Descoberto em 2017, e só seria atingido no fim desse mês.

Barragem do rio Descoberto, responsável por abastecer 65% do Distrito Federal, em 16 de outubro de 2017; volume estava em 11,7% (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)
O presidente da Caesb, Maurício Luduvice, informou que “melhorias operacionais na rede permitiram que a Caesb pudesse trabalhar de forma segura com o reservatório em um nível mais baixo”. Entre essas melhorias, estão "autobombas" instaladas no Descoberto.

A Adasa explicou que uma resolução publicada pela agência em 15 de maio de 2017 limitou a vazão média mensal captada pela Caesb no montante de 3,1 metros cúbicos por segundo e estabeleceu a curva de acompanhamento do volume útil do reservatório do Descoberto para os meses de 2017 tornando-se semanais a partir dos 9%.

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