Floresta Nacional de Brasília: especialista mostra 'mundo invisível' do cerrado

Flona abriga insetos e plantas que contribuem para a vida na unidade de conservação. Veja curiosidades.

Por Marília Marques, G1 DF

Aranha escondida em flor transporta abelha entre as presas (Foto: Marília Marques)

Mais conhecida pela grandiosidade dos eucaliptos e das trilhas para mountain bike, a Floresta Nacional de Brasília (Flona) abriga também um "mundo invisível" de insetos, fungos e pequenos répteis que compõem a biodiversidade no Distrito Federal.

Pelo menos, é assim que o analista ambiental Leo T. Gondim se refere ao universo de cupins, formigas, besouros e borboletas que vivem entre as folhas de uma das mais importantes unidades de conservação da capital.

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Para mostrar parte dessa riqueza do cerrado, o G1 percorreu, nesta semana, trilhas da Floresta Nacional que são abertas para visitação do público. Em meio a mais de 9 mil hectares – uma área equivalente a "dois Guarás" –, pequenos animais e plantas nativas ganharam destaque sob o olhar do pesquisador.

O especialista em insetos é servidor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), instituição responsável pela proteção da fauna e da flora da região protegida há 19 anos.

Cupinzeiro abandonado dentro da Floresta Nacional de Brasília (Foto: Marília Marques/G1)

Dos grandes aos minúsculos

À reportagem, Léo destaca que, apesar da presença de grandes mamíferos na unidade, como a suçuarana, a Flona também é destaque no mundo científico pela quantidade de formigas, cupins, pequenos lagartos e algumas borboletas que só são vistas na região.

Ele explica que ao analisar a biomassa do Cerrado, ou seja, todo o volume de animais desse bioma, um dado curioso chama a atenção: 60% dos animais presentes ali são cupins. Outros 30% seriam formigas, e o restante, demais espécies, principalmente morcegos e ratos. "Mamíferos ainda são poucos, mas se destacam porque são mais visíveis", explica.

"Ainda tem gente que vem passear e diz que não viu nenhum animal. Olha só quanta formiga!", brinca. Para Gondim, esses insetos são importantes para o desenvolvimento dos "sistema vivos da Flona".

"As formigas mastigam as folhas secas e verdes. Isso serve de substrato para um fungo, que nasce, e elas se alimentam [dele]. Está tudo interligado."

Boboleta põe larvas em folha de lobeira (Foto: Marília Marques/G1)

Espécies curiosas

O analista ambiental explica que a unidade de conservação também abriga pequenos besouros e outras espécies de artrópodes "pouco observadas", mas que contribuem positivamente para a manutenção desse ecossistema.

Uma delas é a borboleta – comum no ambiente de cerrado, mas que raramente é vista pondo os ovos, como na situação flagrada pela reportagem (veja imagem acima). Importantes por ajudar na polinização e na disseminação das plantas, esses animais, segundo o pesquisador, revelam o equilíbrio vivido atualmente na Flona.

"Essa biodiversidade está toda interligada, e a quantidade constante de borboletas demonstra que há equilíbrio na natureza", explica Gondim.

A curiosidade dessa espécie encontrada na Flona, segundo conta, é a facilidade em ser vista e fotografada, por exemplo.A borboleta de tonalidades preta e alaranjada é reconhecida pelos voos lentos, "sem pressa". O motivo, de acordo com Gondim, é o "gosto amargo que possui para os pássaros", seus principais predadores.

Exúvia, casca da cigarra presa em tronco de árvore (Foto: Marília Marques/G1)

Já a cigarra, quase invisível no dia a dia das outras capitais do país, é um inseto muito ouvido em áreas verdes do Plano Piloto, em Brasília. Responsável pelo equilíbrio biológico de alguns habitats, o animal se faz importante na natureza por servir de alimento para os predadores.

Na Flona, a cigarra é quase onipresente. Nas copas das árvores do cerrado ou presas aos troncos resistentes de algumas árvores, esses animais existem aos milhões na unidade de conservação. Gondim explica que, ao se prender em uma árvore, a cigarra se enche de ar, seca durante uma noite e, no começo da manhã, já consegue voar com um novo esqueleto. As exúvias – casca seca da cigarra – ficam para trás, como registro do antigo corpo do animal.

"O que é preciso é paciência, e olhos, para realmente ver."

Biólogo Leo T. Gondim mostra pequenos insetos presentes na Flona (Foto: Marília Marques/G1)

Recursos hídricos

Além da fauna e da flora diversas, a Floresta Nacional também é reconhecida pela importância das nascentes que abriga. Contabilizados, quatro córregos que nascem na região contribuem para encher o reservatório do Descoberto, que abastece 60% dos moradores do DF.

Em meio à crise hídrica vivenciada pelo Distrito Federal, na medição de sexta-feira (28), o reservatório do Descoberto atingiu 74,3 % da capacidade; o de Santa Maria alcançou 48,4%. No pior momento, eles atingiram volume de 5,3% e 21,8%, respectivamente.

Em entrevista anterior à TV Globo, o analista ambiental do ICMBio Lídio dos Santos lembrou que o Cerrado possuiu uma grande quantidade de pequenas nascentes que formam um curso dágua subterrâneo. "Inclusive, isso influenciou na escolha desse local pra ser a capital [do país, na década de 1950]", diz ele.

Trilha demarcada dentro da Fona, em Brasília (Foto: Marília Marques/G1)

Floresta Nacional de Brasília

A Floresta Nacional de Brasília foi criada em 1999 como uma medida de proteção das nascentes que mantêm a bacia do Descoberto. Ela fica a 22 km do centro da capital, e não há cobrança de entrada para os visitantes.

A área de visitação fica ao lado da BR 070, próximo à Taguatinga. O espaço tem diversas trilhas: a maior, em formato circular, tem 44 quilômetros de extensão, totalmente sinalizados, e apresenta diferentes níveis de dificuldade.

A Floresta Nacional oferece ainda opções de circuitos menores de 30, 20, 10 e 5 quilômetros, podendo ser utilizadas por pessoas de todas as idades.

Veja abaixo galeria de fotos da Flona:

Fungo cresce sobre tronco de árvore na Floresta Nacional (Foto: Leo T. Gondim/ICMBio)


Lagarto preso a galho em vegetação da Flona (Foto: Marília Marques/G1)


Espécie d efungo sobre tronco na Flona (Foto: Leo T. Godim/ICMBio)



Orelha-de-pau, espécie de fungo que costuma crescer em troncos secos (Foto: Marília Marques/G1)

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