Mudanças na Saúde da Família deixam grávidas do DF sem assistência no pré-natal

Com previsão de fechar o ano com 70% de cobertura no Distrito Federal, ainda há 28 equipes incompletas nos Postos de Saúde da Família.

O pré-natal de gestantes brasilienses está comprometido porque faltam médicos nos Postos de Saúde da Família. Com previsão de fechar o ano com 70% de cobertura no Distrito Federal, ainda há 28 equipes incompletas. Segundo o governo, fortalecer a atenção primária com profissionais que acompanhem toda uma vida vai ajudar a desafogar o caótico cenário das emergências. Por enquanto, a dificuldade começa antes mesmo do nascimento.

Na 26ª semana de gestação (6º mes), a funcionária pública Ana (nome fictício) está há 40 dias com o pré-natal suspenso. Ela é atendida na Unidade Básica de Saúde nº 1, na Asa Sul, onde diz que passou por assistência plena até a mudança para Posto de Saúde da Família, em maio. A mulher de 30 anos prefere manter a identidade em sigilo, mas diz que optou por fazer o acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde por ser referência.

“Minha última consulta foi no dia 3 de maio. Quando cheguei, explicaram que os médicos seriam transferidos por causa da nova estratégia. A médica que me acompanhava já não estava mais lá, mas me encaixaram em um outro, que também disse que sairia”, lembra.

Naquele dia, ela não saiu com o próximo encontro marcado, como de praxe. Em vez disso, a orientaram a retornar no fim do mês. “O posto ficou três dias fechado por conta da greve dos caminhoneiros. Em 1º de junho, disseram que os médicos ainda não tinham chegado. Uma semana depois, a informação foi a mesma. Na última segunda-feira, novamente não tinham previsão. Os funcionários já estão possessos de responder isso”, diz.

A gestante conta que a unidade, que antes era calma, “está um caos”. “Funcionaria bem se em um dia tirassem os médicos e enfermeiros especialistas e, no outro, os novos estivessem no lugar. Quarenta dias de desassistência é muito tempo em uma gravidez. É perigoso. Posso ter infecções, doenças, meus exames vão vencer”, reclama. Nem buscar atendimento em outra unidade ela pode: o atendimento é georreferenciado e depende do endereço de moradia.

“Não tenho nenhuma emergência, mas se demorar vou ter que buscar um hospital e mentir para saber se meu bebê está bem”, revela a funcionária pública. Em unidades particulares, a consulta custa a partir de R$ 300.

Situação é mistério

Coordenadora da Atenção Primária à Saúde do DF, Alexandra Gouvêa diz que a situação enfrentada pelas gestantes da Asa Sul não deveria ter ocorrido. “Não é para não ter agendamento. Nessa unidade, no modelo tradicional, existia apenas um ginecologista e ele está de licença. Mas lá tem dois médicos de família e todos os enfermeiros fazem pré-natal ali. A gente tem que apurar o que aconteceu porque às vezes pode ser servidor que não está seguindo o fluxo”, explica.

Ali, diz, há duas equipes completas de Saúde da Família, além de outras três incompletas, que devem receber reforço ainda neste ano. “Priorizamos colocar as equipes em regiões mais carentes, de maior vulnerabilidade. No processo de mudança, é natural que problemas aconteçam. Alteração de estratégia não mostra resultado de resultado de uma hora para outra. Tem que ter continuidade para que seja garantido”, afirma.Foto:Kléber Lima/jornal de Brasilia

Demora representa perigo para a mãe e para o bebê

Ginecologista-obstetra e presidente do Sindicato dos Médicos, Carlos Fernando explica que o pré-natal é essencial para garantir a saúde de mãe e bebê desde o início da gestação. “Nele são feitos orientações básicas, calendário de vacinação, orientação dietética. Entre os problemas de um acompanhamento deficiente é não detectar pacientes que têm situação de risco”, diz.

Isso sem contar com as perdas de prazo para realizar investigações específicas. De 11 a 14 semanas, é preciso fazer a ultrassonografia da transluscência nucal, que indica presença de anomalias como Síndrome de Down. De 18 a 24 semanas, a morfológica, que permite analisar os órgãos do bebê. Entre 24 e 25 semanas, há o rastreamento de diabetes gestacional, que, se confirmado, pode levar ao parto prematuro.

“Sem o devido acompanhamento, sem a gestante conseguir atendimento periódico, perde-se o momento de cada etapa. Tudo tem data e período para ser feito. É perigoso para a mãe e para o bebê”, alerta o médico. Ele lembra que 70% dos atendimentos nas emergências deveriam ser atendidos na saúde primária, mas o número persiste diante do déficit de profissionais. “O paciente não tem culpa, tem que correr atrás de atendimento mesmo”, pondera.

Transição

Números obtidos pelo Sindicato dos Médicos no mais recente relatório gerencial da pasta, referente ao último quadrimestre de 2017, indicam que mais da metade dos médicos especialistas não aderiu à nova formatação da atenção primária. Dos 423 pediatras, clínicos e ginecologistas, 228 disseram não, representando 53% dos profissionais. Considerando enfermeiros e técnicos de enfermagem, a migração foi maior – 67% e 69%, respectivamente. O documento é avaliado pelo Conselho de Saúde.

Até o fim do ano, a cobertura da estratégia Saúde da Família no DF era de 50,54%, estando em pior situação a área centro-norte da capital (7,67%). A região é composta por Asa Norte, Cruzeiro e Lago Norte. Com segunda menor cobertura estava a região centro-sul, que compreende Candangolândia, Estrutural, Guará, Park Way, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo I e II, Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA).

Reta final

Bem no fim da gestação, Brisa de Moraes, de 16 anos, deixou de passar por atendimento médico por três semanas. O parto dela estava previsto para esta semana. “Quando vim, em 24 de maio, falaram que era para marcar para a próxima semana. Cheguei e foi viagem perdida porque não tinha médico. Uma semana depois, disseram mais uma vez que era para aguardar mais uma semana”, conta.

Meta só será atingida com contratações

De acordo com a coordenadora da Atenção Primária à Saúde do DF, Alexandra Gouvêa, 540 equipes de saúde da família atuam na capital. Para chegar à meta de 70% de cobertura, médicos e agentes comunitários precisam ser contratados. A previsão é de isso ocorra até o fim de julho. Ela conta que a maioria daqueles que hoje atuam nos postos é especialista na área. “Embora se fale muito de transição, apenas uma pequena parcela de médicos optou por permanecer na atenção primária. No Brasil, a maioria dos que atuam nessa frente é de generalistas, mas estamos mudando nosso perfil”, conta a gestora.

Dos 590 médicos da atenção primária, 110 são especialistas que optaram pela conversão para generalista. Quem não quis foi movido para outros níveis de atenção, como UPAs e hospitais.

Presidente do Sindicato dos Médicos, Carlos Fernando considera a remoção como “medida punitiva”. Alexandra rebate: “Não é punitiva. Na atenção primária existe gratificação extra e isso tem movido a necessidade de permanência e causado transtorno com o sindicato”.

Ponto de Vista

Guilherme Nabuco, presidente da Associação Brasiliense de Medicina de Família e Comunidade, explica que o ideal é que os cargos sejam ocupados por médicos especializados, mas não é um problema que generalistas atuem. “A Medicina da Família e Comunidade é uma especialização que vem crescendo no Brasil, mas ainda desvalorizada tanto pela classe quanto pela população, que desconhece”, diz. De acordo com ele, ainda não há especialistas suficientes para ocupar os espaços, mas essa área tem maior residência de medicina de Brasília. O titular da entidade entende que o que acontece na capital é transitório e pensa que o governo segue caminho acertado ao passar a exigir formação nos próximos concursos. Até lá, ele garante que não há problema na atuação de médicos generalistas que passam por capacitação.

No início do mês, candidatos fizeram prova para preencher 40 vagas, além de formação de cadastro reserva, para atuar como médico da família e comunidade. Conforme o edital, os cargos para 40 horas semanais e salário inicial de R$ 12.654 só poderiam ser disputados por profissionais com certificado de residência médica em Medicina de Família e Comunidade ou título de especialista reconhecido pela Associação Médica Brasileira (AMB).

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